Brinquedos fazem a festa do bagunceiro Pato Fu

Música de BrinquedoEm 2004, Adriana Partimpim estreou no mercado fonográfico com um álbum homônimo, no qual lançou mão de instrumentos estranhos como garrafa PET, caixinha de música, saco plástico, piston cretino e pantufa de monstro. Cinco anos depois, Arnaldo Antunes, Antonio Pinto, Edgard Scandurra e Taciana Barros convocaram os próprios filhos para, juntos, gravarem o elogiado disco Pequeno Cidadão. Agora, é a vez do Pato Fu desbravar o enigmático universo infantil. No recém-lançado Música de Brinquedo, o grupo consegue, de certa forma, unir o que há de melhor nos dois projetos anteriores. Ou seja, os brinquedos e as crianças.

No entanto, ao contrário do que acontece em Adriana Partimpim, no décimo álbum do quinteto mineiro, os inusitados instrumentos não são apenas convidados, e sim os donos da festa. Não se ouvem o baixo, a guitarra, o piano ou a bateria. No lugar deles, estão o kazoo de plástico, o glockenspiel de latão, o teclado-calculadora e o saudoso Genius. Cada um ocupando uma função na maluca orquestra produzida por John Ulhoa, que responde pela bagunça ao lado da esposa e vocalista da banda, Fernanda Takai.

Para destacar a excêntrica sonoridade das tralhas, em vez de apresentar canções inéditas, o grupo optou por reproduzir à risca temas consagrados, lançados entre 1956 e 1984. Uma sábia escolha, que permite ao público comparar os arranjos originais às maluquices executadas por John, Lulu Camargo, Ricardo Koctus e Xande Tamietti. Em músicas como Frevo Mulher, de Zé Ramalho, Ovelha Negra, de Rita Lee, e Ska, de Herbert Vianna, a intenção se faz valer completamente. Por outro lado, em My Girl, eternizada pelos Temptations, e Love Me Tender, de Elvis Presley e Vera Matson, a ideia não soa tão original – o que, sob hipótese alguma, invalida a ousadia da proposta.

Outro mérito de Música de Brinquedo, lançado pelo selo Rotomusic e distribuído pela Microservice, está na espontaneidade com que o álbum foi produzido. Ao colocar as crianças para acompanhar Takai nos vocais, John dá ao disco um caráter descontraído e abre mão de qualquer compromisso com a perfeição técnica, geralmente esperada em tempos de Pro Tools. Vez ou outra, em canções como Twiggy Twiggy, gravada pelos japoneses do Pizzicato Five, os brinquedos desafinam. Da mesma forma, em Pelo Interfone, de Ritchie, a filha do casal, Nina Takai, e o colega Matheus D’Alessandro cometem alguns deslizes, com graça. Porém, tudo parece tão natural quanto a confusão da garota ao ler um trecho da letra de Todos Estão Surdos, de Roberto e Erasmo Carlos. “Essa frase vive nos cabelos ‘encoracolados’ das cucas maravilhosas”, diz a pequena.

Do uso criativo das bugigangas ao respeito aos arranjos originais, são vários os acertos em Música de Brinquedo. Contudo, talvez o maior deles seja justamente o resultado final de toda a baderna causada pelos mineiros. Em outras palavras, a grande sacada do grupo está no fato de que não se pode classificar o álbum simplesmente como um disco infantil. É certo que os brinquedos dão um ar lúdico a clássicos como Primavera (Vai Chuva), sucesso na voz de Tim Maia, e Live and Let Die, de Paul e Linda McCartney. Entretanto, músicas como Sonífera Ilha, dos Titãs, e Rock and Roll Lullaby, projetada por BJ Thomas, fazem parte da memória afetiva de quem viveu os anos 70, 80 e 90 e não de quem nasceu na última década. Há uma inseparável mistura entre o que é voltado para os pais, por assim dizer, e para os filhos. Com isso, o Pato Fu consegue a proeza de ousar e, ao mesmo tempo, emocionar adultos e divertir crianças – e vice-versa.

Postado por Cyro Salgado em 12 de agosto de 2010 | 1 comentário »

Quando o canto é reza, Roberta e Trio são Roque

Quando o Canto É RezaVez ou outra, a Bahia dá ao mundo presentes como Dorival Caymmi, Assis Valente e Jorge Amado. Homens aparentemente comuns, não fosse o talento que têm para transformar a vida em palavras e imagens. Comparações à parte, Roque Ferreira parece ser um deles. Afinal, um compositor capaz de escrever versos como “de tanto te amar, no marejo do mar, aprendi as manhas do amor” já pode ocupar tal espaço.

Não à toa, Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil escolheram a obra de Roque para nortear o primoroso disco Quando o Canto É Reza, recém-lançado pelo selo MP,B Discos e distribuído pela Universal Music. Terceiro título da pequena, porém grande, discografia da cantora, o álbum presta um tributo não apenas ao compositor baiano, mas à Bahia, ao samba de roda, à umbanda e a todos os elementos que compõem o universo afro-brasileiro, tantas vezes negado pelo próprio Brasil.

O oportuno encontro de Roberta e Roque com o trio de cordas formado por Marcello Gonçalves, Ronaldo do Bandolim e Zé Paulo Becker resulta em um conjunto acabado. Um feliz casamento entre o erudito e o popular, a força e a leveza, a Bahia e o Rio de Janeiro. Somados às impecáveis interpretações da cantora, os arranjos e a percussão de Zero e Paulino Dias valorizam as letras e, juntos, formam um balaio de ritmos, no qual cabem o coco, a ciranda, o afoxé, a congada e tantos outros. “Todos os músicos contribuíram com ideias para os arranjos”, informa o elegante encarte da obra produzida por Pedro Luís.

“Quando o canto é reza, todo toque é santo.” Além de inspirar o título do álbum, o sublime verso de Água Doce encerra aquele que é, sem dúvida, o principal tema das composições de Roque – a fé. Não por acaso, das 13 músicas do repertório, Roberta e o Trio Madeira Brasil optaram pelo samba-oração Mandingo para abrir a roda. Gravada há dois anos pelo grupo Pedro Luís e a Parede, no disco Ponto Enredo, a canção evoca um poderoso babalorixá, capaz de curar, mas também de matar. “Nó de amor que ele faz, ninguém desata”, diz a letra. “Ele é dono do tempo, do vento, do mar e da mata.”

Roberta Sá e Trio Madeira Brasil

Uma vez abertos os trabalhos, Quando o Canto É Reza segue repleto de símbolos afro-brasileiros. Em Xirê – lançada por Clécia Queiroz no álbum Samba de Roque, de 2009 –, a voz suave de Roberta e as cordas de Marcello, Ronaldo e Zé Paulo narram uma história de amor, que tem como cenário a tradicional cerimônia mencionada no título. No samba-choro Orixá de Frente, a rica poesia de Roque torna palpável a imagem da preta que desce a ladeira e oferece presentes para Iemanjá nas margens do rio Vermelho.

Se, em músicas como Menino, as imagens sagradas do compositor baiano prevalecem, em outras, os arranjos parecem aproximar a Bahia do Rio de Janeiro. É o caso de Zambiapungo, parceria de Roque com Zé Paulo. Na congada, a sutileza do bandolim de Ronaldo e do canto de Roberta em nada perde para o vigor das palmas e dos versos que louvam Zâmbi, o deus supremo, na umbanda. Há um perfeito equilíbrio entre lá e cá, semelhante ao que se vê na ciranda Água da Minha Sede – canção-título do álbum lançado por Zeca Pagodinho há dez anos. Também assinada por Dudu Nobre, a letra flerta com o samba carioca e a viola caipira, sem abrir mão de achados poéticos como “o meu amor é passarinheiro, ele só quer passarinhar”. Uma metáfora digna de Caymmi.

Não contente em mergulhar nas profundezas da fé afro-brasileira, Roberta pesca ainda, na obra de Roque, outros encantos da Bahia. No legítimo samba de roda Chita Fina, a dupla exalta a simples beleza da mulher baiana. No maxixe Cocada, a cantora narra com graça o modo de preparo do famoso doce. “Trepe no coqueiro, tire o coco e vá quebrar”, ensina. “Quebre o coco, tire a casca, pegue o coco e vá ralar.” Com a mesma descontração, em Tô Fora, o carioca Moyseis Marques assume o microfone para protagonizar, com a colega potiguar, um embate conjugal ao som do naipe de violões. “Pra mim, é o fim”, sentencia o marido. “Comigo, esperança é a primeira que morre.”

Mote presente na obra de todo grande poeta, o amor é também objeto fundamental no mundo de Roque. Sempre por perto, o sentimento cresce e ganha força em Marejada e na metafórica A Mão do Amor – citada por Maria Bethânia no álbum Tua, de 2009. Sem fugir do tema, Roberta e o Trio Madeira Brasil encerram os trabalhos com Festejo, uma das únicas músicas que não contam com a percussão de Zero e Paulino. Contudo, antes de fechar a roda, a anfitriã entoa o Samba pras Moças – canção-título de outro disco de Zeca, lançado em 1995. “Só vou embora quando meu amor mandar”, garante a cantora, como quem tem exata noção do sagrado espaço que agora lhe cabe na música brasileira.

Postado por Cyro Salgado em 4 de agosto de 2010 | Nenhum comentário »